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A China será o primeiro país sem dinheiro físico?

Você ainda carrega cédulas de dinheiro consigo no seu dia-a-dia? Ou faz a maioria dos seus pagamentos com seu cartão de crédito? Em qualquer um dos casos, para a China, você já está muito atrasado! O mesmo país que inventou o papel-moeda no século VII poderá se tornar o primeiro país sem dinheiro físico. Do papel-moeda diretamente para os pagamentos online, todas as barraquinhas de café-da-manhã nas grandes cidades chinesas já aceitam pagamento via smartphone e até mesmo os garçons já carregam um QR code para receber sua gorjeta! Ficou curioso? Fique nesse post que explicaremos tudo sobre esse novo fenômeno chinês!

A China será o primeiro país sem dinheiro físico?

Se você andar pelas ruas do centro de PequimShenzhen e outras grandes cidades chinesas, com certeza vai se deparar com essa cena: chineses em barraquinhas de rua comprando seu café-da-manhã, um maço de cigarros, ou alugando uma bicicleta e pagando com seus smartphones. Todos esses estabelecimentos já contam com um QR code exposto junto de seus produtos, e tudo o que o cliente precisa fazer é apontar a câmera do celular para o código e o pagamento está feito. Simples assim: sem filas, sem notas, sem moedas caindo no chão ou perdidas em sua carteira.

Além das barraquinhas de rua, restaurantes e bares em geral, a maioria dos serviços na China também utilizam o pagamento digital. As bicicletas espalhadas pela cidade só podem ser alugadas via smartphone, custando 50 centavos a hora; os taxistas em Pequim, também; os garçons nos restaurantes já tem o próprio código pendurado no avental para receber gorjetas, e até pedintes estão sendo vistos com placas de QR codepara receber uns trocados dos transeuntes – sem desculpas para não ajudar!

Boa parte dos locais ainda aceita dinheiro vivo, mas dá preferência aos pagamentos por meio dos famosos aplicativos WeChat e Alipay, principais plataformas de pagamento online atualmente. Com sua popularidade crescendo progressivamente, as transações online já representam 60% das compras na China e no ano de 2016 o volume de pagamentos realizados via smartphone alcançou 5,5 trilhões de dólares – um número extremamente significativo e que pode indicar que, em breve, a China pode vir a ser o primeiro país sem dinheiro físico no mundo.

Mas o que mudou na China?

A mudança brusca na dinâmica de pagamentos na China é derivada, em grande parte, de duas mudanças nos últimos sete anos: o aumento de 31% do PIB per capita, para 6500 dólares, e de 30% na taxa de uso da internet, para 50 em cada 100 chineses. Dos 1,35 bilhões de habitantes da China, 710 milhões tem acesso a internet e os smartphones são relativamente barato (pouco mais de 500 reais um aparelho de ponta da Huawei ou Xiaomi).

Além disso, um dos fatos que mais surpreende é que a China não passou pela fase de pagamentos em massa via cartão de crédito ou débito. Com o aumento do PIB e a maior facilidade de acesso aos smartphones, os chineses já avançaram para os pagamentos via aplicativos e os cartões sequer chegaram a ganhar muita popularidade. Como destacou In Hsieh, presidente da China-Brasil Internet Promotion Agency e ex-diretor da Xiaomi no Brasil, em entrevista para a Exame, “Os jovens chineses não tiveram computador e pularam para o celular. Também não tiveram cartão de crédito e foram direto para os pagamentos digitais. Quando eles passaram a ter acesso à tecnologia, mergulharam de cabeça”.

Com todas essas mudanças, a previsão dos especialistas é que a China se torne o primeiro país sem dinheiro físico em alguns anos: a transição definitiva levaria 5 anos nas grandes cidades e 13 anos até que o resto do país se adapte. Então, se você estiver na China em 2030, não se esqueça de ter sempre seu celular carregado!

Guerra de gigantes: Alibaba x Tencent

Como já contamos aqui, os chineses resolvem praticamente tudo através de aplicativos. Não seria diferente, é claro, na hora de pagar as suas compras. Apenas duas companhias chinesas responderam por 3 trilhões de dólares em transações em 2016: a varejista online Alibaba, de Jack Ma, dona do serviço de pagamentos Alipay, e a empresa de tecnologia Tencent, de Ma Huateng, dona do aplicativo WeChat (conhecido como Weixin na China).

Lançado em 2011, o WeChat tem base num sistema de mensagens no estilo do WhatsApp e do Twitter, mas permite que seus 889 milhões de usuários comprem passagens aéreas, localizem um restaurante, encontrem um namorado, agendem uma consulta médica, chequem a qualidade do ar, entre diversas outras funções, tudo no mesmo aplicativo. Desde 2013, os usuários podem também fazer pagamentos através do WeChat Pay, uma espécie de carteira virtual dentro do aplicativo.

O crescimento da Tencent, dona do WeChat, se deve a sua incrível dominância da audiência móvel na China: 55% do tempo que os chineses passam no celular são gastos em algum dos aplicativos da empresa (QQWeChat e outros). E ter o aplicativo sempre em mãos torna muito mais prático pagar as suas compras no mundo offline com um simples toque na tela.

Apesar disso, a rede Alibaba ainda lidera o mercado chinês com 54% de participação nas compras digitais, tanto em lojas online quanto físicas: são 2921 dólares por ano gastos por cada um dos 450 milhões de usuários do Alipay. Já o Wechat detém 37% do mercado, e o valor gasto por usuário em 2016 ficou em 1526 dólares, um crescimento de 168% em um ano.

Numa competição acirrada, ambas empresas continuam investindo em novidades para seus aplicativos. O Alibaba está investindo em serviços financeiros via Alipay, onde os clientes podem fazer pequenos investimentos e poupanças dentro do aplicativo. Já o WeChat atualizou o costume milenar chinês de presentear amigos com dinheiro e criou uma versão digital onde os usuários podem enviar seu presente dentro de um envelope vermelho, como manda a tradição.

O monopólio dos aplicativos

Uma característica bastante particular da China, que ajuda a explicar a sua crescente independência do dinheiro físico, é o controle do seu ambiente online. Os mais populares apps de troca de mensagens e mídias sociais, incluindo o Facebook, o Instagram e o Twitter, são bloqueados pelo governo chinês, o que dá as empresas chinesas a chance de dominar esse mercado. Enquanto nós, por aqui, utilizamos cada app para uma função diferente, os chineses só precisam do WeChat para realizar todas essas tarefas. Assim, adaptar um aplicativo tão popular para poder realizar pagamentos tornou previsível o abandono do dinheiro físico.

Além disso, os chineses também tendem a utilizar mais os seus celulares do que outros países. “Se você comparar os EUA com a China em termos de como as pessoas acessam a internet, a China é muito mais inclinada a utilizar smartphones. As pessoas ainda gastam muito de seu tempo nos celulares, e para elas é lógico ter todas as ferramentas de que precisam em um único lugar”, afirmou Ben Cavender, analista sênior da China Market Research Group, em Shanghai.

A intenção de tornar-se o primeiro país sem dinheiro físico não é exclusiva da China. A Suécia já declarou sua intenção de receber o título e, de fato, há uma tendência mundial de abandonar o uso do dinheiro em papel. Nesta semana, a Visa anunciou que irá pagar US$10 mil para 50 restaurantes e fornecedores de alimentos que aceitarem parar de receber os pagamentos em dinheiro.

Tendência essa que, inclusive, já chegou ao Brasil: também nesta semana, a Câmara dos Deputados discutiu sobre o Projeto de Lei 48/2015, que sugere extinguir a circulação de cédulas de dinheiro no país. Apesar dos pagamentos sem dinheiro vivo estarem crescendo por aqui, o caminho para o Brasil ainda parece ser longo, já que a adaptação dos estabelecimentos comerciais até mesmo ao uso de cartões de crédito e débito ainda é muito recente, e a dinâmica do uso dos smartphones também difere bastante da chinesa. Mas o importante é que estamos caminhando, certo?

E você, o que pensa sobre essa mudança no modo de pagamentos? Acha que o Brasil conseguirá avançar nesse aspecto nos próximos anos? E a China, será ou não o primeiro país sem dinheiro físico?

 

Fontes: China Daily, Exame, Motherboard, ValueWalk, China News

Ana Yamashita – China link trading

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