Acontece

O que a aviação ganha com as empresas low cost

Viajar pagando menos pela passagem área, ainda que em condições não tão confortáveis. Para muitos consumidores mundo afora, a equação vale a pena. Essa é a proposta das companhias aéreas low cost (baixo custo), também conhecidas como low fare (tarifa baixa). Famosas no Exterior, essas companhias, aos poucos, vão ganhando espaço no mercado brasileiro e incomodando a concorrência.

A abertura para a atuação dessas companhias foi facilitada pela medida provisória (MP) assinada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), em dezembro do ano passado, que liberou até 100% de capital estrangeiro nas companhias aéreas brasileiras. Atualmente, três empresas low cost já possuem autorização operacional para rotas entre o Brasil e outros países.

A estratégia contempla não só uma fatia do público que deseja voar pagando menos, mas também atende a uma necessidade de economia dessas empresas. “Existe uma nova era de tecnologia de aviões mais adequados com voos mais baratos, considerando os aviões que conseguem fazer o quilômetro mais em conta e gerar diferenciais econômicos nesse mercado”, explica James Rojas Waterhouse, professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), citando como exemplos as aeronaves AirBus A321 Neo e Boeing 737 Max.

Aliada à saturação do modelo premium, que cobra mais caro pelos serviços oferecidos, essas companhias estão deixando de fazer apenas voos domésticos e indo além, ultrapassando as fronteiras entre países. De acordo com James, a tendência que chega ao Brasil já é aplicada em regiões como Europa, Ásia, América Latina e Estados Unidos.

Francisco Heber de Oliveira, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que a Gol, quando surgiu, em 2001, tinha a proposta de oferecer serviços de baixo custo. De acordo com ele, a entrada de empresas que já operam dessa forma lá fora pode, inclusive, aumentar a demanda. “Acho que vai abrir oportunidades para pessoas que não tenham tanto poder aquisitivo assim”, analisa.

Já a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), aponta a competição entre as companhias aéreas como fator que beneficiará consumidores. “Essa concorrência entre as empresas amplia a oferta de alternativas de serviços e preços para a escolha do passageiro, de maneira a melhor atender suas preferências com maior transparência nas relações de consumo”, diz.

O especialista em transporte aéreo Adalberto Febeliano acredita que Fortaleza ganha destaque no cenário aéreo das empresas low cost a partir da concessão do Aeroporto Internacional Pinto Martins à empresa alemã Fraport. “Para esses administradores aeroportuários, quanto mais passageiros no aeroporto, melhor. Mais dinheiro vale o aeroporto. Eles querem mais passageiros, portanto, têm interesse na chegada de novas empresas. Esse é um dos passos importantes pra gente ir modernizando o setor”, observa.

Com 87% das obras de expansão do terminal concluídas, a Fraport informa que a nova estrutura permitirá a chegada de outras companhias aéreas. Os primeiros passos para a atração de low costs já foi dado pela Secretaria do Turismo do Estado (Setur). No ano passado, uma missão da pasta na Suécia tentou atrair voos da norueguesa Norwegian, que já opera no Aeroporto do Galeão (RJ), para o Ceará. De acordo com o titular da Setur, Arialdo Pinho, ainda não há confirmação de operação da companhia no Estado.

Perguntas e respostas

O que são
companhias low cost?

São empresas de aviação que se diferenciam das demais por cobrar baixos valores em suas passagens aéreas. Em contrapartida, essas companhias reduzem a cartela de serviços que poderiam encarecer o valor final. Segundo Paulo Neto, gerente de mercado lazer da Casablanca Turismo, algumas aéreas já nasceram com esse objetivo, algo que ficou caracterizado na desconfiguração das comodidades antes incluídas nas passagens.

“O setor aéreo viveu um momento em que você comprava uma passagem aérea que te dava direito a despachar duas malas de 32 kg. Você tinha direito a marcar o seu assento, fazer uma refeição com louça e talheres de prata. Você tinha uma série de itens e serviços incluídos. Cada um desses itens acabou sendo subtraído do que era o principal, o deslocamento”, explica.

Paulo esclarece que uma coisa leva a outra. Malas mais pesadas exigem mais combustível. Uma louça mais requintada também requer mais gastos com manutenção e remuneração de pessoal treinado para manusear os objetos e servir os clientes da forma adequada. “Todos esses itens viraram acessórios em uma companhia low cost”, destaca.

Low cost necessariamente indica menos serviços?

Não. A diferença é que comodidades antes gratuitas passam a ser pagas. Dessa forma, algumas companhias do gênero conseguem faturar mais. Paulo explica que uma série de serviços perdem a característica da gratuidade e passam a ser pagos nas empresas aéreas desse tipo, como: marcação de poltronas, despacho de bagagem, oferta de entretenimento como filmes e séries, lanche durante o voo e até mesmo distribuição de água.

Ele também destaca outras características que podem desagradar determinados perfis de consumidores, como o fato de as aeronaves realizarem pousos e decolagens em aeroportos secundários, muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos. Outro ponto a ser considerado é a menor distância entre as poltronas, a fim de que o avião comporte mais passageiros.

Por que companhias como Latam, Gol e Azul adotam práticas low cost?

Muitas das atuais empresas de aviação que atuam no País aplicam práticas características das companhias low cost há muitos anos, ainda que mantenham os preços das passagens elevados. Uma das mais conhecidas é a cobrança pela bagagem despachada.

Segundo Paulo, a estratégia serve para que as companhias busquem mais lucratividade para enfrentar obstáculos como a falta de receita e as variações cambiais que impactam diretamente no preço do combustível e no leasing (financiamento de aeronaves).

“Isso fez com que elas criassem categorias de preços, ou classes de passagens como a supereconômica, que dá direito a despachar uma mala além da mala de mão. Isso atendeu a um determinado público que faz viagens curtas e criou rentabilidade para rotas mais longas”, explica.

Autorização

De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a autorização dada às companhias low cost tende a aumentar a oferta de rotas e cidades atendidas por voos domésticos e internacionais, alinhada a outras medidas como a redução do Imposto sobre Mercadoria e Serviços (ICMS) do combustível nos estados, a concessão de aeroportos à iniciativa privada e a desregulamentação da bagagem despachada. Mudança que, inclusive, visou, dentre outros aspectos, trazer companhias de baixo custo ao País.

Ingo Ararê

A restrição orçamentária não assustou o engenheiro de produção Ingo Ararê, 34, quando decidiu, junto da esposa, viajar pela Europa. O casal optou por voar em companhias low cost para países como Portugal, França, Suíça, Alemanha e Holanda, decisão que contribuiu até com a logística de visita aos países. “Se fôssemos de trem ou de carro alugado, demoraria muito e perderíamos tempo no trânsito. Realmente, era a melhor opção”, lembra.

A experiência rendeu boas histórias. Além do aperto entre poltronas, Ingo conta que, em um dos voos, foram comercializados produtos inusitados como raspadinha e perfume. Pelo preço que se dispôs a pagar, ele destaca que já viajou preparado para as condições que encontraria. “Eu não senti falta de nada. Era aquilo mesmo que eu precisava”. Porém, para futuras viagens, ele confessa que, caso tenha dinheiro sobrando, vai dar preferência às companhias tradicionais.

Eduarda Gonçalves conheceu o serviço low cost durante intercâmbio na Europa e se tornou usuária ativa do serviço desde então
Eduarda Gonçalves conheceu o serviço low cost durante intercâmbio na Europa e se tornou usuária ativa do serviço desde então

Eduarda Gonçalves

A professora de línguas Eduarda Gonçalves,29, conheceu o serviço low cost em 2011, durante um intercâmbio na Europa. Ela lembra que foi de Paris (França) a Oslo (Noruega) pagando muito pouco. “Acho que foi o voo mais barato da minha vida, custou seis euros”, recorda. Hoje, Eduarda mora na Colômbia, país com diversas companhias aéreas do tipo que operam voos domésticos. “Eu faço com bastante frequência. Sempre opto, primeiro, por questões de preço. Segundo, porque não sou viajante que leva muitas coisas. Como viajo muito para praias, não preciso de tanta bagagem”, explica.

Eduarda recomenda que os usuários leiam as regras impostas pelas companhias antes de viajar. Ela comenta que há muitas empresas que cobram pela opção de check-in realizada no aeroporto e pela bagagem despachada. Ela observa, também, que muitas aéreas não seguem o padrão internacional para bagagem de mão, o que pode pegar muitos viajantes de surpresa. “Isso é muito chato. Já aconteceu comigo por eu levar uma bolsa a mais”, afirma.

Fonte: Opovo.com

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