México, país feito de arte

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Como uma capital cosmopolita que abriga mais de 170 museus, o México é um país povoado pela arte. Tendo como principais referências os nomes de Frida Kahlo e de Diego Rivera, o país é berço também de vários novos artistas e de uma expressiva arte popular.

 A inscrição feita no muro azul é simbólica. Não é uma mensagem deixada por algum turista, mas pelos próprios moradores: “Frida y Diego vivieron en esta casa 1929-1954”. A frase perdura em tinta branca sobre um azul celestial que cobre boa parte das paredes e que acabou por batizar o museu da artista mexicana com maior relevância nas Américas.

La Casa Azul, no charmoso bairro de Coyocán (parte ao sul da Cidade do México), foi morada e ateliê de Frida Kahlo, que se mudou para lá no ano em que se casou com o muralista Diego Rivera, que havia conhecido, em 1928, quando procurava entender seu estilo de pintura. “Foi deste encontro e, principalmente, sobre a influência de Diego que Frida começa a adotar cores amplas, fortes e vivas. E também firmar sua identidade mexicana em suas pinturas, com temas recorrentes das tradições, do folclore e da arte popular”, detalha Edmundo Alfarro, como a contar, pela primeira vez, a história da artista em seus 27 anos a guiar pelos corredores da casa de matizes azuis. Edmundo é, como costumam chamar no México, um “fridamaníaco”.

Fridamania

Foto da recente exposição no ateliê-museu de Frida e o cavelete usado pela artista

Foto da recente exposição no ateliê-museu de Frida e o cavelete usado pela artista

Frida está por toda parte. Não só em suas obras espalhadas pelos principais museus do México, mas sua imagem adorna embalagens de doces, transforma-se em souvenirs, estampa camisetas, vira miniaturas a brincar pelas mãos de crianças e surge em sacolas de nylon (destas típicas de feira popular), que ganham um colorido intenso e vão parar nos braços de turistas. Em sua casa-ateliê, conhecida como La Casa Azul, é possível encontrar suas referências e confirmar sua popularidade. Entre corredores e ambientes, objetos pessoais e documentos inéditos convivem com quadros e gravuras. Livros e cadernos de estudo figuram lado a lado com fotografias, pincéis e tintas. E está lá até mesmo o cavalete adaptado à sua cadeira de rodas, onde costumava pintar durante sua longa convalescença, e uma curiosa coleção de vidros de purpurina. A casa de cores vivas é pano de fundo para obras de iguais matizes. Encontram-se quadros importantes de sua carreira, como “Viva la Vida” e “Henry Ford Hospital (The Flying Bed), sua primeira pintura a óleo. E autorretratos, muitos deles demonstrando um certo interesse pela moda.

 

Frida Fashion

A recente exposição temporária, em seu museu, trata exatamente deste vínculo da artista com o mundo dos tecidos, bordados e adornos. A mostra “As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo”, título inspirado em um dos seus muitos autorretratos, traz peças das mais diversas e adereços coloridos. Em especial, saias longas e cheias de texturas bem como calçados adaptados pela própria artista, que precisava ocultar pernas desiguais, cicatrizes e uma coluna fraturada – fruto de uma poliomielite quando criança de um grave acidente que sofreu aos 18 anos e das mais de 30 cirurgias.

Além dos vestidos, joias e sapatos, são expostos, pela primeira vez, seus aparelhos ortopédicos e próteses. Veem-se também estudos de vestimentas (que, em sua maioria, ela mesma confeccionava) e ilustrações que retratam o que ela escondia sob as roupas. Gravuras e objetos estes que serviram de inspiração para peças de estilistas, como Jean-Paul Gualtier, e para a marca Comme des Garçons, que também estão entre os 300 objetos da exposição. No passeio pelo ateliê-casa, que recebe cerca de 20 mil visitas ao mês, é possível encontrar outros fridamaníacos e entender porque a artista mexicana encanta a muitos e marca tendência – até na moda.

Pintura-mural de Siqueiros

Pintura-mural de Siqueiros

México feito de arte

La Casa Azul é um dos mais de 170 museus que a cosmopolita capital mexicana abriga. A Cidade do México perde apenas para Londres em números de opções neste tipo de turismo cultural. Entre imponentes edifícios, reminiscências de construções pré-hispânicas e sítios arqueológicos, há arte por toda a cidade. Seja em fotografias espalhadas por muros do Paseo de La Reforma, importante avenida de 12 km que corta a cidade e comporta até mesmo um castelo, o de Chapultepec. Ou nas obras ao ar livre assinadas por importantes muralistas que surgem, vez ou outra.

Como as pinturas de Alfaro Siqueiros e sua pintura-mural, que sempre primou por experimentar com novos materiais e técnicas. Tendo como temática principal a política, Siqueiros retrata principalmente a revolução mexicana e o povo do México. Do artista, é possível encontrar monumentais obras pela cidade. Como as que circundam o Polyforum Siqueiros, um misto de museu, teatro, loja e restaurante, que abriga parte das obras do muralista. É neste espaço que se encontra o grandioso La Marcha de la Humanidad, um mural com mais de 8.700 m².

Impossível não deixar de admirar também as obras de Diego Rivera, que surgem, como de surpresa, ao caminhar pela capital mexicana. Suas obras, aliás, são como o cheiro delicioso de comida picante que paira pela cidade. Está ali, intrínseco ao lugar. Assim é como o museu-mural que leva o seu nome. Ou as obras que ficam no campus da Universidade Nacional Autônoma do México.

Diego em Guanajuato

Para conhecer um pouco mais da história de Diego, é preciso viajar mais de 300km da capital. É em Guanajuato, uma cidade-universitária com ruelas de casas pintadas de cores vivas em tons que variam do amarelo ao bordô, que se encontra a casa onde nasceu o pintor e, em 1975, tornou-se seu principal museu. O acervo, em exibição, traz obras realizadas ainda na infância, como a “Cabeza clássica” até as últimas de suas peças, como “Madame Libet”.

A cidade que herdou uma topografia curiosa, cheia de colinas e uma complexa rede de túneis (que eram galerias de seus áureos tempos como centro mineiro), ainda abriga um festival de teatro em homenagem a Cervantes. Além de um museu iconográfico dedicado especialmente ao seu personagem mais conhecido, Dom Quixote.

Do popular às galerias

Mas nem só de Riveras, Kahlos e Siqueiros é feita a arte do México. Uma das principais riquezas artísticas encontra-se exatamente no popular. Seja em feiras de artesanato, nos vendedores que perambulam pelas praças, ou ainda em museus especializados no que é feito pelo artesão. É também nos novos talentos ou nos artistas de arte contemporânea que o legado deixado pelos três influentes pintores se reafirma.

San Miguel Allende, a 97 km de Guanajuato, parece ser o exemplo perfeito da junção entre o popular e o contemporâneo. A cidade colonial, que tem atraído uma grande comunidade de residentes estrangeiros, acolhe um interessante museu: o La Esquina Museu dos Brinquedos. Mais do que apresentar toda uma série de brinquedos que povoaram a infância de muitos mexicanos, o museu é um centro da arte popular. Peças dos mais diversos pontos do país retratam o fazer do artesanato mexicano que se utiliza da madeira, do barro, da palha e do tecido. É lá que é possível ver as mais diferentes bonecas criadas em homenagem a Frida Kahlo. Quando estiver em Guanajuato, além da Casa de Diego Rivera, conheça o museu Iconográfico Del Quijote. A atual exposição contempla desenhos do personagem de Cervantes feitos pelo artista espanhol Salvador Dalí. Para desfrutar da nouvelle cuisine mexicana, não deixe de visitar o restaurante El jardin de los Milagros, do chef Bricio Domínguez. No cardápio, uma mescla de influências contemporâneas usando insumos tipicamente mexicanos. Para conhecer: www.eljardindelosmilagros.com.mx. No quesito hospedagem, a cidade é repleta de hotéis boutique, como o encantador Edelmira, que une o histórico e o sofisticado em um mesmo ambiente, além de um completo SPA.

No extremo, está a Fabrica La Aurora, uma antiga tecelagem que, hoje, recebe artistas dos mais variados perfis. Ateliês e galerias de arte funcionam lado a lado com escritórios de arquitetos e designers. Além das pequenas exposições e das mostras de design, é possível ver de perto o artista em produção. O complexo de arte ainda traz uma importante loja de produtos têxteis, além do ateliê do renomado artista contemporâneo Fernando M. Díaz.

“O México é o último país mágico”, escreveu um dia Pablo Neruda. E eu pediria permissão para completar “e cheio de arte”.

Texto de Ana Naddaf, originalmente publicado na 11ª edição da Revista Fora de Casa.

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Atualização!

De 17 de julho a 23 de novembro, Curitiba receberá no Museu Oscar Niemeyer a mostra Frida Kahlo – As Suas Fotografias. “O acervo reflete de maneira clara os interesses da pintora”, diz o curador da exposição, Pablo Ortiz Monasterio. “A família, o seu fascínio por Diego e os seus outros amores, o corpo acidentado, os amigos e alguns inimigos, a luta política, os índios e o passado pré-hispânico, tudo isso revestido da grande paixão que teve pelo México”, enumera, Ortiz, alguns temas que aparecem nos retratos.

Frida no Brasil, apenas em Curitiba. Vamos?

Serviço:
Frida Kahlo – As Suas Fotografias
Data: 17 de julho a 02 de novembro de 2014
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h
Local: Museu Oscar Niemeyer – Sala 03 – Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico – Curitiba – PR
Ingressos: R$6 e R$3 (meia-entrada para professores e estudantes com identificação).

Fonte: O Estadão

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Last modified: 22 de julho de 2014

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