O Fascinante Myanmar

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Por Pedro Marques

Depois da aventura relatada no post anterior, seguimos viagem rumo ao Myanmar, deixando a Tailândia com o coração na mão, mas também cheios de expectativas para o que nos aguardava no misterioso e exótico Myanmar, país também conhecido como Birmânia. O país menos visitado do Sudeste Asiático, expremido entre dois gigantes – Tailândia e Índia –, com uma história recente complexa e complicada, aberto ao turismo há poucas décadas, regido por um duro governo militar e cujo o ex­presidente dos EUA, George W. Bush, incluiu no “temido” Eixo do Mal. Será que é para tanto? Tivemos que conferir i​n loco.​

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#PartiuMyanmar! Foto: Martín Abbá

DO OUTRO LADO DA PONTE, MYANMAR

Cruzamos a frontera por terra (Mae Sot, lado tailandês; M​yawaddy, lado birmano), onde todo o procedimento foi tranquilo e fomos super bem tratados. Já nos primeiros metros após atravessar a ponte da amizade que liga os dois países, as coisas foram mudando: era explícita a pobreza e carência das pessoas do lado do novo país, bem como os carros antigos e as estradas precárias. No rosto de praticamente todas as mulheres, crianças e de alguns homens, atanaka, uma pasta amarela que é aplicada como uma maquiagem natural e que também tem a função de protetor solar; na boca de quase todos os adultos, uma trouxinha para mascar de tabaco, noz de betel e especiarias que são mania nacional, mas que deixam os dentes e a saliva vermelho­ sangue, o que lhes dá um aspecto meio vampiresco. Exótico, esse tal Myanmar.

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Bebezinha com tanaka no rosto. Foto: Martín Abbá

Pegamos um taxi compartilhado com locais e 4 horas depois estávamos em Hpa­An, uma cidade que carece de maiores atrativos, mas que cresceu em uma região cujo entorno é espetacular. Alugamos um tuk­tuk – aquele carroças puxadas por uma moto, tão habituais por essas bandas – compartilhado com outros mochileiros e passamos o dia percorrendo os arredores da cidade. Templos dentro de enormes cavernas e gigantescas pedras cársicas cercadas de campos e mais campos de arrozais dão um tom dramático à cena, que culminou em um pôr­ do ­sol espetacular.

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[De cima para baixo, da esquerda para a direita] 1. Jardim de budas. / 2. Paisagens estonteantes nos arredores de Hpa­An / 3. Um dos inúmeros e gigantescos templos dentro das cavernas. Fotos: Martín Abbá

UMA SURPRESA CHAMADA YANGON

Nossa parada seguinte foi em Yangon, maior cidade birmana e, para mim, a maior surpresa do país. Caótica, suja, velha, austera. Todos esses adjetivos podem ser aplicados à Yangon. Mas, para mim, ela vai além: histórica, autêntica, rústica, pulsante. Ficamos hospedados nos arredores da Sule Pagoda, zona “turística” da cidade. “Turística” porque, apesar de estarmos no epicêntro da cidade, se cruzamos 2 ou 3 vezes com turistas ocidentais nesses 3 dias que passamos por lá foi muito. Minha sensação era de que éramos os únicos viajantes por aquela terra que parecia ter parado no tempo.

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[De cima para baixo, da esquerda para a direita] 1. A trivialidade da vida em Yangon. / 2. A beleza do destruído. / 3. Comércio pelas ruas de Yangon. Fotos: Martín Abbá

As casas todas velhas, detonadas… Algo que lembra um pouco a Lapa, no Rio de Janeiro, Veneza, Porto, ou Havana (que, apesar de eu nunca ter ido, tenho uma imagem bem concreta no meu imaginário). Mas, claro, com um apelo e influências meio indianas, meio tailandesas. As comidas (todas muito rústicas, fritas em óleo de procedência duvidosa, sem nenhum tipo de acabamento), as roupas (as mulheres sempre com roupas tradicionais; os homens sempre com longyi, uma espécie de saia longa, amarrada com um nó na frente), os comércios (produtos antigos, com embalagens vintages, com excessão das lojas que vendem acessórios para smartphones): tudo parecia ter parado no tempo. Ou então esse ônibus que peguei em Hpa­An na verdade era uma máquina do tempo que me levou há décadas atrás.

Nossos dias se resumiram a andar a esmo pela cidade, visitando seus parques, interagindo com os nativos e permitindo ela mesmo se mostrar para a gente. Como ponto turístico, visitamos a Shwedagon Pagoda, uma estrutura dourada com 99 metros de altura, que é o maior e mais sagrado templo do Myanmar. Yangon é uma cidade incrível e obrigatória para quem vem por essas bandas.

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[De cima para baixo, da esquerda para a direita] 1. Um dos diversos templos dentro do complexo da Shwedagon Pagoda / 2. Shwedagon Pagoda / 3. Gigantescos budas cobertos de ouro / 4. Simpático monge que conhecemos enquanto fazia suas preces. Fotos: Pedro Marques

A IMPRESSIONANTE BAGAN

A parada seguinte seria no lugar que, supostamente, era para ser um dos h​ighlights​ da viagem pelo Myanmar. Bagan, a cidade dos 10.000 templos, encoberta por uma natureza selvagem e preservada. Chegamos ao amanhecer, nos alojamos em Nyaung­U (uma cidadezinha a 7km das atrações de Bagan, onde fica a maioria dos alojamentos baratos) e algumas horas depois já estávamos percorrendo a zona história de Old Bagan. E, olha, se a expectativa estava nas alturas (dá uma pesquisada aí no Google, e você vai saber o que eu estou falando) ela foi completamente superada. Bagan é, realmente, isso tudo e mais um pouco. Rivaliza com um dos lugares mais impressionantes em que já estive na vida: Angkor Wat, no Camboja.

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Bagan: um lugar perfeito para um passeio fotográfico. [Fotos: Pedro Marques e Martín Abbá]v

Segundo conta a História, a cidade possuía 10.000 templos – cujas construções datam do século 9 ao 13 – mas que, após sucessivos terremotos entre 1904 e 1975, foram reduzidos a pouco menos de 3.000. Apesar do número bem reduzido se comparado aos 10.000 iniciais, os templos incrustados na paisagem inóspita e selvagem de Bagan impressionam demais, seja pela sua magnitude, seja pelo estado de conservação (alguns, nos mais populares, o governo birmanês fez uma restauração grosseira que acabou com a magia das construções).

Alugar uma moto ou uma bicicleta e se perder nesse mar de templos é a melhor forma de conhecer o lugar. Pedalar sem destino por estradas de terra, sentindo a brisa no rosto, e se deparar com uma cultura milenar fascinante é delícia que só Bagan pode dar ao turista. Programe­-se para ver o pôr­ do ­sol e o amanhecer, porque é quando a beleza dos templos atinge seu ápice. Particularmente, preferi o amanhecer: muito mais tranquilo e muito mais bonito. Dica: o melhor ponto para o amanhecer foi na área da Bulethi Pagoda e para o pôr ­do ­sol o Dhamma­Yan­Gyi Patho, bem menos lotado que o seu vizinho famoso Shwe San Daw Phaya, e tão alto quanto.

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Amanhecer em Bagan: impressionante, não? Foto: Martín Abbá

Como despedida dessa região, decidimos dar uma passada no Monte Popa. Mais especificamente, no templo que construíram no seu cume. Contudo devo admitir: ele é bem mais bonito de longe, com sua presença imponente do que quando subimos os quase 800 degraus até o topo. Lá em cima é um amontoado de salinhas com budas adornados com luzes LED (!), árvores com dinheiro no lugar de frutos e alguns poucos budistas proferindo sua fé. É diferente, mas não essencial e se não der tempo, dá pra pular…

PASSADINHA RÁPIDA POR MANDALAY

Pegamos um ônibus e fomos para Mandalay, segunda maior cidade do Myanmar. Sem tanto charme como Yangon, dedicamos apenas 2 dias a ela. Visitamos o que é considerado o maior livro do mundo (na verdade, é um mar de placas de mármore no entorno da Kuthodaw Pagoda) e dali fomos ver o pôr ­do­ sol na U­Bein Bridge, uma ponte de 1,2 km, cuja construção data de 1850, sendo, assim, a mais antiga ponte de madeira do mundo. A ponte em si é bem transitada, mas, embora lotada de turistas, é um lugar lindo e super fotogênico. Sobretudo no pôr­do­sol. Vale a visita.

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Pôr­do­sol na U­Bein Bridge. Foto: Martín Abbá

PARA ALÉM DE MANDALAY

O destino seguinte era bem ao Norte do Myanmar. Hsipaw, uma cidadezinha perdida nas montanhas, que era famosa pelo clima ameno e os fantásticos trekkigns do entorno. Pegamos um trem noturno desde Mandalay que passava pelo famoso e histórico Goteik Viaduct, uma linha de trem suspensa que, na sua maior altura, fica a 250 metros do chão.

Hsipaw é um vilarejo charmoso (para os padrões birmanos, ok?), com um clima agradável e preços convidativos. Ficamos por 6 dias, explorando o entorno, fazendo caminhadas por entre as montanhas e arrozais, descobrindo cachoeiras e conhecendo seu povo amável e hospitaleiro. Também fizemos um trekking de 2 dias e 1 noite por nossa conta: eu, Martin e um espanhol decidimos pôr o pé na estrada sem guia, portando apenas o GPS. Caminhamos 6 horas mata adentro até chegar a uns povoados de nomes impronunciáveis, que nem estão no mapa oficial. Pernoitamos em um deles, na casa de uma senhora que abre suas portas para estrangeiros curiosos como a gente. Na manhã seguinte, mais 8 horas de caminhada de volta a Hsipaw.

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Após as folhas secarem, são separadas dos talos para produção de chá. Tudo feito à mão. Foto: Pedro Marques

No nosso último dia decidimos conhecer o Shan Palace, uma casa histórica cuidada pela Mrs. Fern. Seu esposo, Mr. Donald, herdou o palacete do seu tio Sao Kya Seng, último príncipe Shan (dinastia presente nessa região do Myanmar). Em 1999, ele decidiu abrir a casa para visitação, contando a história da sua família e o obscuro desaparecimento do seu tio pelas mãos dos militares. Isso acabou atraindo a atenção do governo e, em 2005, Mr. Donald foi preso, acusado de dar muita informação para estrangeiros e de difamar o Estado. A casa foi fechada por não ter licença para operar como “museu” e ele também foi acusado de manter uma biblioteca ilegal. Vale salientar que esta biblioteca é uma estante com 80, 100 livros doados por estrangeiros que visitaram a casa nos anos em que ela esteve aberta. Seria cômico se não fosse trágico. Em 2009, Mr. Donald foi anistiado com a condição que não poderia falar mais com estrangeiros. Por sorte, sua esposa, Mrs. Fern, com uma coragem que só surge em quem já teve seu direito de livre expressão limitado, reabriu a casa à visitação em 2012, onde conta todos os dias a história de sua família. Uma história contundente e emocionante sobre resistência e coragem.

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Um dos simpatississimos birmaneses que encontramos no trekking. Foto: Pedro Marques

KALAW

A cidade seguinte do nosso roteiro foi Kalaw, um povoado nas montanhas que serve, principalmente, como base para o trekking de 2 ou 3 dias pelas montanhas e planícies do centro do Myanmar até chegar no Inle Lake, destino popular deste País. Fechamos o trekking de 2 dias e 1 noite e partimos para o Inle Lake na manhã seguinte à que chegamos. No caminho, muita paisagem de cair o queixo, diversas plantações de cúrcuma, gengibre, gergelim, variados tipos de flores e ervas. Cruzamos por vilarejos mais rústicos do que jamais havíamos visto e com gente com uma energia contagiante. Senhorinhas de 70, 80 anos subindo montanhas com as costas carregadas de feno, arados puxados por gigantescos e musculosos búfalos, crianças encantadas e assustadas com a nossa presença e homens sempre nos oferecendo vinho de arroz ou algum destilado forte para ajudar a esquentar no frio congelante que fazia por essa região. Isso tudo sob um céu decorado por infinitas estrelas. Foi mágico.

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Imagens inesquecíveis do trekking de Kalaw para Inle Lake. Fotos: Martín Abbá e Pedro Marques

Chegamos a Inle Lake no dia seguinte, com os corpos cansados, mas com a mente em êxtase. A experiência do trekking foi incrível e inesquecível. No dia seguinte alugamos um barquinho para conhecer melhor o lago Inle, que domina totalmente a região. Passamos por pagodas – um tipo de templo no budismo – em ilhotas, plantações de várias frutas e verduras flutuando no meio do lago (como eles fizeram isso eu ainda não descobri), e vimos o famoso “balé” dos pescadores que possuem uma técnica única que utiliza uma perna como força propulsora do barco, enquanto, em pé e equilibrados apenas com a outra perna, jogam pesadas redes e cestos para capturar os peixes.

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É um pescador, mas poderia facilmente ser um bailarino. Foto: Martín Abbá

Nossa jornada pelo Myanmar chegava ao fim e decidimos como última parada antes de cruzar novamente a fronteira para a Tailândia a cidade de Mawlamyine. Como promessa, havíamos lido que era uma cidade pacata, charmosa, que possuia um belo rio, com uma arquitetura antiga, da época em que o Myanmar era colônia britância. Na prática, foi quase isso, mas com a pior relação custo/benefício no quesito alojamento. O fato de pagar caro em um quarto sujo e desconfortável nos fez rever nossos planos. O que deveria ser 2 ou 3 dias apenas relaxando se converteu em 1 dia, fazendo­-nos ir do Myanmar um pouco mais cedo do que imaginávamos.O Myanmar acabou sendo uma experiência única, inesquecível e altamente recomendada para quem busca um destino exótico e que, ao contrário de todo o Sudeste Asiático, ainda não está mega­ explorado pelo turismo, onde as pessoas são simpáticas apenas por serem simpáticas, onde os golpes ainda não existem com tanta força, com paisagens e lugares incríveis e sem uma horda de turistas para se esquivar. Um país complexo, com uma história recente sofrida e cujos direitos humanos ainda são um sonho distante de serem alcançados. Mas, sem dúvida, um país fascinante.

*Pedro Marques está viajando pela Ásia com o apoio da Casablanca Turismo e da April Seguros.

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Last modified: 12 de junho de 2017

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